Por Cristina Salgado.2008.

Carlos Contente é um jovem artista do Rio de Janeiro com um nome peculiar: Contente. Daí ser uma coincidência interessante que seu trabalho seja impregnado de humor. Trata-se, é verdade, de um humor corrosivo, em conexão com certa tradição underground das histórias em quadrinhos e do graffiti ? o artista, que cursou a Escola de Belas Artes, chegou a passar por situações difíceis, grafitando muros nas madrugadas violentas do Rio. Em 2002, Contente criou o que ele chama de seu alter-ego: um autoretrato como imagem sintética, que pode ser infinitamente reproduzida por meio de carimbos ou stencil. Esse mini-Contente passou a contaminar, desde então, como um vírus, o espaço urbano, e chegou aos espaços institucionais de arte, como o Paço Imperial do Rio de Janeiro. Nos espaços que permitem ao espectador um olhar mais intimista, o pequeno Contente carimbado se associa a desenhos a lápis, simultaneamente delicados e bizarros, de indiscutível qualidade gráfica. Contente implanta-se em múltiplos e absurdos corpos, como estranhos personagens que estruturam ficções igualmente absurdas, em que texto e imagem se combinam. Os desenhos como estórias vão se proliferando e gradualmente saturando as paredes durante o período da exposição, como um organismo em contínuo crescimento. O trabalho quase maníaco da multiplicação de Contentes em espaços interiores e exteriores; o humor um tanto perverso e non sense das estórias construídas; o forte desejo da comunicação, declarado pelo próprio artista: todos estes são elementos que dão à obra de Carlos Contente uma qualidade que desafia ironicamente os parâmetros mais conservadores para obra de arte. Já freqüentando os espaços legitimados da arte, seus desenhos parecem revelar o olhar crítico do autor sobre os valores instituídos, os parâmetros artísticos e morais, como se, estes sim, fossem realmente muito loucos.

 

Cristina Salgado, 2008.