Por Felipe Scovino.2012

Um audacioso auto-retrato

Felipe Scovino

 

É importante começar esse texto afirmando que Contente não teme em se expor. Pelo contrário, é essa vontade que o move. É o seu alter-ego (incluindo a impressão estilizada do seu rosto) que habita as suas obras. Suas angústias, medos, convicções, amores, tédios, discursos e erros estão lá. Mais uma vez temos um exemplo concreto de que a vida não se separa da arte. Mas há um desvio nessa construção: ao mesmo tempo em que a arte se infiltra na vida, há a aparição do artista como personagem. É outra possibilidade de pensarmos acerca do auto-retrato nas artes visuais. Personagem, artista e indivíduo se confundem naquele plano bidimensional e ficamos reféns/cercados de aspectos ficcionais, utópicos e, quem sabe, reais.

Na obra de Contente, não há espaço para narcisismos nem investimentos no ego, mas uma alegoria sensível sobre o isolamento no mundo e a redução de nossas individualidades em favor de um coletivo (que pode ser traduzido como mercantil se considerarmos obras como Compradores de mundo, de 2009). Nessa tela, o mercado é um tabuleiro de Banco Imobiliário sendo jogado por figuras asquerosas, mesquinhas, histéricas e com as cabeças substituídas por figuras estilizadas do Pac Man, o personagem de videogame que existia apenas para comer o que vinha pela frente antes que o seu tempo acabasse (ou seja, fosse deglutido pelos inimigos). Essa tela revela um dado relevante no discurso de Contente: a sua visão de mundo, que para alguns pode ser entendida como audaz, ao retratar sem pudores um tipo de personagem e pensamento que habita o mercado de arte e que se guia pela falta de escrúpulo e ética. Um ser voraz que identifica a obra de arte como investimento, abdicando de seu valor artístico. É diante dessa vontade de expor as idiossincrasias do mundo que a escrita de Contente (e estou me referindo tanto aos títulos – ácidos – das obras quanto aos escritos propriamente ditos encontrados na tela) cria um vínculo com a sua imagem, que por sua vez nunca é mera imagem de si oferecida à contemplação, mas um discurso com um caráter denso e provocativo que o artista quer deflagrar, não ilustrar. Suas obras nos remetem a uma espécie de diário. Há algo infantil e violento, cruel e áspero, veloz e intransigente, amoroso e doce como um soco na barriga. São todos sentimentos de um mundo caótico e violento; o mundo em que vivemos e que sempre será habitado por diferenças e conturbações. Contente compartilha uma ideia de mundo que não necessariamente é a sua, principalmente se você adota um mundo passível e ordeiro. As representações de Contente não são silenciosas, e é nessa apreensão que percebemos a qualidade de “objeto negativo” desse auto-retrato, ou seja, sua principal vocação, mais do que ser visto, é dirigir o olhar e percepção justamente para o que ocorre no mundo.

É curioso perceber em seu trabalho a relação que estabelece com o espaço. Suas primeiras obras nascem na rua (os carimbos feitos com estêncil reproduzindo a sua face) habitando paredes, passando por lugares periféricos ou se infiltrando em espaços como a Praça XV, que ao mesmo é um ponto de encontro de skatistas (esporte adotado pelo artista/personagem) e local onde se encontra o Paço Imperial, importante centro cultural da cidade. É curioso perceber que sua “reprodutibilidade técnica” no cenário da cidade, em vários momentos precisou lidar com o seu rápido “apagamento” (pelas companhias de limpeza urbana) até seu gradual desaparecimento provocado por processos de sobreposição e colagem de cartazes, pichações ou grafites. Tal proceder põe em xeque várias considerações difundidas no meio da arte, pois, se o aparecimento veloz e eficiente da obra de Contente se anuncia e realiza, ao mesmo tempo questiona a própria natureza da obra de arte e seu lugar como objeto, no sentido de fazer parte de uma coleção ou arquivamento, porque é justamente esse lugar que se torna inviável diante de tal acontecimento. Como anuncia nos escritos presentes na obra A Teoria do plano pictórico infinito (2010), seu desejo é “tornar muros, edifícios e cidades em suportes da expressão, da experimentação visual, de proposições, [de uma] nova escrita”. É importante ressaltar que não é de interesse do artista questionar os limites entre arte e crime nessa ação, mas ressaltar as possibilidades poéticas - citando Mário Pedrosa - de um “exercício experimental da liberdade”.

O que inquieta e intriga o trabalho de Contente é a síntese alucinada da qual parecem resultar suas obras, que por sua vez nos ofertam com uma atmosfera híbrida, resultante do encontro entre história da arte, pintura, histórias sequenciais e uma espontaneidade que nos obriga a repensar sobre nossos valores éticos e morais. Sem subtrair a hipocrisia do circuito de arte, insistindo mesmo em exibi-la, cada módulo construtor da “pequena história do circuito de arte contemporâneo” dispõe e resolve seus elementos com toda clareza. Em Entrevista com o verde (2002), notamos que não há espaços para respostas conclusivas nem piadas sobre a nossa identidade cultural, mas situações limites que expõem o estatuto seja da cor ou da forma. A todo o momento sendo transformada, misturada, experimentada ou anulada, a cor parece ter perdido a sua autonomia, a sua vontade “enquanto sujeito”. Por outro lado, o artista não compartilha com o meio de arte oficial, cuja estratégia parece manter a arte como espaço fechado em si mesmo, reduto mítico ao qual poucos têm acesso, enfim, símbolo da mais elevada produção humana. É nesse momento que percebemos o tom cínico e debochado de Contente em obras como Tarsilão (2004). Fazendo uma paródia com Operários (1933) de Tarsila do Amaral, um dos marcos da afirmação de uma identidade brasileira pautada na construção de um jovem país republicano formado por operários, mulheres assim como retratos de artistas, ou o que definiria o “povo brasileiro”, Contente os substitui pelo seu auto-retrato. Voltando a Entrevista com o verde, por que não colocar os dois (cor e artista) lado a lado, ou melhor, como num talk show, o artista entrevistando o seu convidado, a cor? Vítimas e produtores do meio em que habitam, ambos (aparentemente amordaçados pelo sistema de arte) são personagens centrais de uma estrutura que repensa o seu lugar constantemente.

Cabe dizer que os auto-retratos de Contente não necessariamente tornam-se aparentes na tela em um estado, digamos, humano. O artista inventa seres, relações e anatomias que convergem para um universo surrealista. Nesse cenário, a produção de Contente se converte em um conjunto de obras que surpreendem e desestabilizam pelo excesso. Tendo a sexualidade como símbolo, esse “excesso erótico” é utilizado como provocação, no sentido de ultrapassar os limites de valores morais; nessa acepção, o excesso produz “escândalo”. Isto também é realçado no “excesso de representação”, ou na “desmesura quantitativa e qualitativa” das vaginas, pênis e mulheres nuas presentes em sua obra. O fenômeno do choque pelo público quando toma contato com a obra do artista é passível de acontecer; entretanto, não estamos falando de um choque, que com uma frequência cada vez maior acontece no circuito da arte contemporânea, isto é, um choque contra o elitismo ou algo essencialmente político que acaba tornando-se trivial, mas um conceito nada superficial ou vulgar que dá ao choque a conotação de um nervo que pressionamos para conseguirmos as mais severas controvérsias na arte.

Em uma década mergulhada em instalações, arte robótica, performances, qual seria o lugar da cor e dos suportes em que costuma habitar (pintura, desenho)? A questão agora é como se fazer ouvir, como mostrar que a experiência que você propõe é veemente, importante. Vivemos cada vez mais cercados de informação e num transbordamento de imagens onde o excesso revela o lado paradoxal dessa “torrente tecnológica”: a desinformação ou o afogamento em dados inúteis. Nessa tentativa de pulverizar fronteiras e propagar conhecimento, a globalização cria um sistema de comunicação e reprodução onde você pode fazer tudo e nesse anseio de assimilar o “todo”, notamos consequências graves, como a banalização da imagem. É nesse momento que o trabalho de Contente se coloca. Ele opera exatamente contra essa automatização ao escolher uma estrutura de história sequencial para a sua obra. É como um intervalo em um tempo que não admite pausas assim como uma tomada de posição (a escolha de Contente por técnicas digamos “tradicionais”, ou que pelo menos identificam a gestualidade ou a presença do artista naquele espaço de experimentos) frente a uma mecanização de técnicas e subjetividades. Contente não quer ser engraçado. Suas obras têm uma ansiedade e impaciência dignas desse começo de século. O personagem Contente precisa dar conta do que se passa, expor as circunstâncias e instâncias que envolvem e se confrontam seja no processo de formação de um mercado de arte no Brasil (produção, circuito, crítica, colecionadores), ou em dados mais subjetivos ou afetivos, como o amor, a inveja, a ciúme, a indecisão, e às vezes um lado um tanto brega que a vida nos prega. Se em Entrevista com o verde, a obra (aqui transfigurada em cor ou entrevistada) é debochada, ri da sua própria condição de mercado, ela também afirma que pertence à ordem do afeto e da linguagem, levando ao desespero o seu interlocutor ao renunciar o seu “status econômico”. O dado kitsch vem na série de LPs em vinil na qual o artista constrói uma referência imagética para o título do LP ou das canções.  O kitsch passa não apenas pelo tema dos escritos (o amor bandido, a dor de cotovelo) mas pelos intérpretes escolhidas (a fina bossa da música brega) e símbolos adotados (como é o caso de Frida Kahlo).

Contente nos deixa a par de uma situação um tanto curiosa: a arte não se pode saber arte porque o meio não determina muito bem o que é arte. Nesses dispositivos de virtual permissividade em que os trabalhos estão envolvidos sob a camuflagem de uma pós-modernidade, Contente deixa aparente as (in)decisões tomadas pelo circuito de arte sobre os rumos da imagem e o posicionamento frágil e instável de quem a produz e a mercantiliza.