ESTÉTICA DA COMICIDADE

Centro de artes da Universidade Federal Fluminense

26 de setembro a 28 de outubro de 2018

Curadoria Jacqueline Melo

CENTRO DE ARTES DA UFF

R. Miguel de Frias, 9 - Icaraí, Niterói - RJ, 24220-900

             Estética da Comicidade, minha mais recente mostra individual no Centro de Artes da Universidade Federal Fluminense consiste na exposição de três histórias produzidas entre 2013 e 2016 respectivamente e as chamo de desenhos-de-histórias-fora-dos-quadrinhos. Há também um objeto, uma bancada pintada que no dia da abertura tinha sobre ela uma bala: se entitula bancada da bala.  Há uma vídeo-entrevista feita pela curadora Jacqueline Melo; a julgamos necessária como introdução, para que não hajam dúvidas sobre a intenção e o posicionamento político do artista.

            O título da mostra é um trocadilho com o título do filme Arquitetura da destruição, um documentário sueco de 1992 dirigido por Peter Cohen. Nas histórias que desenhei, entituladas Claudinho & Adolfo, protagonizam as personagens Claudinho, um autêntico batalhador carioca, guia turístico e seu hóspede Adolfo, um inadequado europeu, trajando um sobretudo mesmo no calor; um neonazista assumido que vem ao Brasil em busca de "turismo de atrocidade". O título da história se refere a dois ídolos mortos que me serviram de inspiração: um, muito querido, da dupla do funk Claudinho & Buchecha, de cuja versão da canção Tempos Modernos[2] de Lulu Santos, marcou minha adolescência. O outro ídolo, execrável espectro mal despachado da Europa que volta abrir em pleno século XXI as suas asinhas de urubu.

            Claudinho & Adolfo é uma ficção absurda.  A história, contada a traços rápidos e despojados de virtuosismo é uma crítica à face desumana e autoritária que assume o capitalismo quando tem que enfrentar as crises que cria e aos estados de excessão criados constantemente nos bolsões de miséria e exclusão. A dupla circula pelo Rio de Janeiro, visitando bairros silenciados e governados por grupos armados; assistindo de camarote numa laje uma cena de extorsão policial com bandidos, visita uma fila precária do SUS[3] onde uma médica negra é alvo de comentários racistas e classistas. Adolfo se apaixona por esta terra, onde ele identifica os elementos fundamentais dos seus cultuados regimes autoritários. Eles já se encontram no ar.

            Na segunda história Claudinho & Adolfo em uma aventura baiana, o adorador do fascismo começa a narrativa desembarcando de um vôo de Salvador com um enorme chapéu de palha, um berimbau e gritando para Claudinho que está apaixonado. Logo veremos que não é por uma pessoa. A narrativa se passa dentro da van do guia turístico, enquanto Adolfo conta as suas peripécias e as imagens nos levam à Bahia, onde guiado pelo primo baiano de Claudinho, o nazista  quer ver opressão e desgraça, visitando fazendas com trabalho em condições análogas à escravidão e fotografando jovens de elite do interior praticando extermínio à sua maneira. Adolfo pasmo e excitado, respeitoso como se houvesse encontrado algo mais à direita do que a extrema direita.

            A terceira história gira em torno da ambiguidade da palavra gravidade. Grave, sério, sóbrio, soturno, mortal; Gravidade, o peso das coisas, o campo gravitacional, a força de atração.  Ambos os sentidos da palavra vêm a calhar quando se trata de falar do crescimento do fascismo.

            As histórias de Claudinho & Adolfo foram produzidas entre 2013 e 2016, como quem faz anotações sobre as condições atmosféricas. Os elementos do fascismo  já pairavam no ar e agora assustam ao campo progressista - que andou bem distraído com um certo progesso econômico na aliança de classes e com avanços sociais que pareciam irrevogáveis - só que não: tudo que é sólido se desmancha no ar[9]. As páginas de Claudinho & Adolfo viraram publicações online e desdobradas em performances em protestos - a primeira história virou livro em 2014. As outras duas são inéditas, escritas enquanto acompanhava o crescimento do extremismo no Brasil e no exterior. Foi um trabalho feito com muito amor e um toque de humor frente ao  fascismo e a obscuridade - mas nunca com a gracinha terrorista e mentirosa deles. A deles, não!

 

Carlos Contente